Muito se fala de amigos virtuais. Há até uma pesquisa, que
merece descrédito, que indica que de cada 8 casais americanos que se casaram em
2008, 1 se conheceu nos sites de redes sociais.
Mas, afinal, nossos amigos virtuais têm o mesmo perfil de
nossos amigos fisicamente próximos? Sou tentado a crer que isso não é verdade.
Você pertence a um grupo dentro do seu trabalho. Convive com
esse pessoal, troca e-mails, telefonemas, SMSs, troca inclusive informações
privilegiadas dos seus setores (nada mais humano e natural que isso). Às vezes,
vocês almoçam juntos, batem papo, conversam bobagens. Às vezes, vocês saem e
conversam muito. Volta e meia, o assunto trabalho está de volta. Por outras
vezes, o assunto é sobre algum funcionário ou sobre namoros dentro da empresa. Tudo
isso é muito conhecido de todos nós. Faz parte da nossa socialização, algo,
fortemente amplificado em nossa espécie, mas que outros animais também
realizam.
Nossa vida é mais ou menos assim, cíclica, e a cada saída,
os mesmos assuntos.
Agora, imaginemos que a Mariana, uma personagem muito real,
mas de nome fictício, decide falar sobre o incrível romance árabe que viu no
cinema e se debulhou de chorar. Bom, ela conta que depois do filme, quis ler o
livro. Encontrou um exemplar em inglês na internet, comprou e o devorou.
Depois, correu para ler outros livros do mesmo autor árabe. Todos na mesa acham
interessante. A conversa é legal, com um nível de tolerância baixo. Em pouco
tempo, o assunto é diplomaticamente mudado.
Depois, Mariana e o grupo da empresa voltam a sair. Mariana
conta do seu novo livro do tal autor árabe. Agora, as pessoas começam a se
chatear com o assunto. Ninguém ali, na verdade, está nem aí para a tal
literatura árabe que Mariana tanto gosta. A conversa toma outro rumo... talvez,
o namoro entre dois colegas do trabalho.
E a vida segue assim... “pra variar”.
Então, Mariana conheceu, na internet uma pessoa que também
gosta e indica livros árabes. Essa pessoa mora a 3.000 quilômetros de distância
e Mariana jamais a verá pessoalmente. Mas o papo é interessante e eles passam 2
horas ou mais falando sobre esses livros. Mariana, inclusive, descobre outros
autores e até uma comunidade virtual especializada em literatura árabe formada
por pessoas ocidentais, que fazem referência daquela literatura à luz da nossa
cultura, que é bem diferente.
Agora, Mariana tem novos amigos. Todos virtuais, mas que
conversam, basicamente, um tipo de assunto.
Com isso, é possível que nossa personagem passe a viver dois
mundos. No mundo presencial, as amizades são de assuntos mais genéricos e que
tratam das questões bem próximas a nós. Nele, conhecemos bem as pessoas, suas
histórias, suas qualidades, defeitos, suas mazelas, suas forças e fraquezas.
Vivemos, convivemos e tocamos nessas pessoas. Nele, é mais fácil que os
relacionamentos se tornem íntimos, afinal, a geografia é fundamental neste
caso.
No outro mundo, virtual, nossas amizades possuem interesses
bem distintos, que essas pessoas próximas não conseguem atender. Nesse mundo,
conversamos longamente sobre aquilo que
nos interessa em particular. É uma amizade por interesse específico. Nela, quanto
mais amigos, mais informações sobre o assunto, portanto, mais nos envolvemos
nos assuntos.
É uma ligação onde nos aprofundamentos nos assuntos. Na
outra forma de amizade, nos aprofundamos também em pessoas.
Faço constantemente o teste em sala de aulas. Aqueles
grupinhos próximos, onde a amizade e a relação é forte, algumas pessoas possuem
diversas afinidades com outras pessoas, de outros grupos da mesma turma. E,
muitas vezes, nem sabiam disso. Faço o teste com tipo preferido de viagem, de
gastronomia, de cultura.
Podemos chegar a dizer que a conveniência pela sobrevivência
social nos faz relacionar com as pessoas que estão fisicamente próximas. As
amizades virtuais nascem de uma conveniência por explorar mundos e interesses que
essas pessoas próximas não podem nos satisfazer.
Não há conflitos entre amizades próximas e distantes. São
complementares. Como seres humanos, só há ganho em equilibrar esses dois tipos
de relacionamentos. Nosso universo está amplificado para muito além dos nossos
horizontes geográficos. Nossas amizades também.