quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sobre amizades virtuais e reais


Muito se fala de amigos virtuais. Há até uma pesquisa, que merece descrédito, que indica que de cada 8 casais americanos que se casaram em 2008, 1 se conheceu nos sites de redes sociais.

Mas, afinal, nossos amigos virtuais têm o mesmo perfil de nossos amigos fisicamente próximos? Sou tentado a crer que isso não é verdade.

Você pertence a um grupo dentro do seu trabalho. Convive com esse pessoal, troca e-mails, telefonemas, SMSs, troca inclusive informações privilegiadas dos seus setores (nada mais humano e natural que isso). Às vezes, vocês almoçam juntos, batem papo, conversam bobagens. Às vezes, vocês saem e conversam muito. Volta e meia, o assunto trabalho está de volta. Por outras vezes, o assunto é sobre algum funcionário ou sobre namoros dentro da empresa. Tudo isso é muito conhecido de todos nós. Faz parte da nossa socialização, algo, fortemente amplificado em nossa espécie, mas que outros animais também realizam.
Nossa vida é mais ou menos assim, cíclica, e a cada saída, os mesmos assuntos.

Agora, imaginemos que a Mariana, uma personagem muito real, mas de nome fictício, decide falar sobre o incrível romance árabe que viu no cinema e se debulhou de chorar. Bom, ela conta que depois do filme, quis ler o livro. Encontrou um exemplar em inglês na internet, comprou e o devorou. Depois, correu para ler outros livros do mesmo autor árabe. Todos na mesa acham interessante. A conversa é legal, com um nível de tolerância baixo. Em pouco tempo, o assunto é diplomaticamente mudado.

Depois, Mariana e o grupo da empresa voltam a sair. Mariana conta do seu novo livro do tal autor árabe. Agora, as pessoas começam a se chatear com o assunto. Ninguém ali, na verdade, está nem aí para a tal literatura árabe que Mariana tanto gosta. A conversa toma outro rumo... talvez, o namoro entre dois colegas do trabalho.

E a vida segue assim... “pra variar”.

Então, Mariana conheceu, na internet uma pessoa que também gosta e indica livros árabes. Essa pessoa mora a 3.000 quilômetros de distância e Mariana jamais a verá pessoalmente. Mas o papo é interessante e eles passam 2 horas ou mais falando sobre esses livros. Mariana, inclusive, descobre outros autores e até uma comunidade virtual especializada em literatura árabe formada por pessoas ocidentais, que fazem referência daquela literatura à luz da nossa cultura, que é bem diferente.

Agora, Mariana tem novos amigos. Todos virtuais, mas que conversam, basicamente, um tipo de assunto.
Com isso, é possível que nossa personagem passe a viver dois mundos. No mundo presencial, as amizades são de assuntos mais genéricos e que tratam das questões bem próximas a nós. Nele, conhecemos bem as pessoas, suas histórias, suas qualidades, defeitos, suas mazelas, suas forças e fraquezas. Vivemos, convivemos e tocamos nessas pessoas. Nele, é mais fácil que os relacionamentos se tornem íntimos, afinal, a geografia é fundamental neste caso.

No outro mundo, virtual, nossas amizades possuem interesses bem distintos, que essas pessoas próximas não conseguem atender. Nesse mundo, conversamos longamente sobre aquilo que nos interessa em particular. É uma amizade por interesse específico. Nela, quanto mais amigos, mais informações sobre o assunto, portanto, mais nos envolvemos nos assuntos.

É uma ligação onde nos aprofundamentos nos assuntos. Na outra forma de amizade, nos aprofundamos também em pessoas.

Faço constantemente o teste em sala de aulas. Aqueles grupinhos próximos, onde a amizade e a relação é forte, algumas pessoas possuem diversas afinidades com outras pessoas, de outros grupos da mesma turma. E, muitas vezes, nem sabiam disso. Faço o teste com tipo preferido de viagem, de gastronomia, de cultura.
Podemos chegar a dizer que a conveniência pela sobrevivência social nos faz relacionar com as pessoas que estão fisicamente próximas. As amizades virtuais nascem de uma conveniência por explorar mundos e interesses que essas pessoas próximas não podem nos satisfazer.

Não há conflitos entre amizades próximas e distantes. São complementares. Como seres humanos, só há ganho em equilibrar esses dois tipos de relacionamentos. Nosso universo está amplificado para muito além dos nossos horizontes geográficos. Nossas amizades também.

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